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Consultório de Psicologia

Espaço de transformação com a finalidade de orientar, ajudar, esclarecer dúvidas e inquietações. Encontre equilíbrio, use sua criatividade e deixe fluir sua energia. Mariagrazia Marini Luwisch

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Automutilação e angústia

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 Olá, meu nome é Paula tenho 15 anos, tenho pais, meus pais já sabem, por um descuido minha mãe viu as cicatrizes no meu braço tentei mentir falar que eram apenas arranhões mas ela não acreditou e tive que contar tudo... eu me sinto sozinha...não sei porque me corto, já faz uns 4 meses que isso vem acontecendo, estou perdida em um mundo de horror onde a lâmina é a minha última saída, não sei como parar isso já virou um vício, eu tento não fazer mas quando eu paro pra pensar me vem na cabeça, quais os motivos que fariam eu não fazer?

 

Me corto. Me arrependo. Me corto novamente. Lembro das promessas que acabo de quebrar. Me corto novamente. E assim vai indo.

Fui tão fraca ao ponto de cometer esses erros no meu pulso? Eu sei que decepciono muita gente fazendo isso, mas o que eu posso fazer se isso é o meu único refúgio? Se é a única coisa que me faz se sentir melhor? E antes de qualquer outro, eu tenho decepcionado a mim mesmo.

Olhar para os braços e lembrar dos motivos, das dores, das angústias. Tem dor Pior ? Eu penso em não fazer fico ali tentando me segurar, a lâmina na mão. Me vem na cabeça o rosto triste dos meus pais ao ver sua filha se mutilando, o olhar de desaprovação, o pensamento ”aonde nós erramos?”.

Não são vocês queridos pais, sou eu. Eu é que cheguei na vida de vocês e estraguei tudo, toda cicatriz tem sua história.

 

Olho para meus pulsos e minhas lágrimas escorrem, enquanto todos dormem e outros sonham acordados com o futuro maravilhoso que querem ter com seu ‘amor’, eu estou aqui sozinha perdida em meus cortes me recordando de cada coisa de cada dor e jurando para min mesma que não cometerei o mesmo erro. Sinto um vazio a vontade de me cortar é imensa.

O que começou com 1 corte passou a ser 5,10 e por aí vai. Cortes que mais pareciam arranhões Hoje é mais um dia em que fracassei promessas jogadas foras. Não aguentei, não suporto passar um dia sem me cortar. Pensei que poderia controlar esse vício mais na verdade é ele quem em controla. Tudo isso partiu de uma brincadeira. Hoje é um vício. Um vício que me consome que me deixa bem, mas ao mesmo tempo me faz sentir uma completa idiota e mentirosa por prometer a muitos que eu iria parar com isso.

 

Um dia eu até cheguei a ficar ali por muitas horas, sentada no chão do banheiro, olhando para teto. Passava-me cenas de tudo de ruim que havia vivido. Lembro-me daquelas noites em que não conseguia dormir. Aquelas vozes perturbadoras me seguiam. Virava-me na cama e cobria meu rosto com o travesseiro. A fim de conter meu choro.

"Às vezes a dor causada por um sentimento é tão forte que sentimos a necessidade de tirar essa dor de dentro do peito e transmiti-la para o corpo. A sociedade condena, julga, critica, mas só que sente no peito essa dor que é insuportável é capaz de entender o alivio de sentir na pele."

 

Os meus Cortes antes apareciam por algum motivo. Hoje aparecem por vício Eu só queria poder parar. Eu só queria voltar à viver. Só queria poder dar uma risada verdadeira. Queria poder me achar, no meio dessa confusão, eu só queria voltar a ser aquela garotinha, que ria, que era feliz, alegre, com vida.

Sinceramente, eu já perdi a conta de quantas madrugadas eu já passei ouvindo músicas que me cortavam por dentro, e escrevendo, escrevendo textos que a maioria se assustaria ao ler, tentando fazer com que palavras descrevessem sentimentos que nem eu mesma compreendia.

Passo o dia falando que estou bem, mesmo não estando, sorrindo quando a minha vontade é chorar, mentidos pra pessoas que me querem bem e pra outras que nem tanto, calma aí… alguém me quer bem?

 

É eu acho que a resposta é óbvia, mas enfim, passar pelo dia até que é “fácil”, mas quando chega a noite, tudo que eu suportei forte durante toda minha vida vem em mente, tudo que me falam e finjo que não ligo, que não me atinge passa pela minha cabeça e a dor, a agonia que eu sinto aqui dentro parece se multiplica milhões de vezes e de repente me vejo sozinha no banheiro com a porta trancada, sentada no chão com a lâmina na mão e o sangue já ali escorrendo, e nesse momento eu sinto um alivio inexplicável, é como se tudo o que eu sentia até então sumisse assim em um passe de magica, a dor dos cortes supera, ou faz com que eu esqueça pelo menos por um momento a dor que eu sinto aqui dentro,

EU PRECISO DE AJUDA, PF

 

Cara Paula,

A prática da automutilação é uma tentativa de aliviar sensações como angústia, raiva, frustração ou seja uma dor interior. Como tu mesmo dizes: “é como se tudo o que eu sentia até então sumisse assim em um passe de mágica, a dor dos cortes supera, ou faz com que eu esqueça pelo menos por um momento a dor que eu sinto aqui dentro”.

 

Esse teu comportamento é sintoma que alguma coisa não vai bem. A mutilação não é uma automedicação para a tristeza. Em geral, está associada a doenças, como a depressão. Nesses casos é preciso haver ajuda psicológica para receber avaliação e tratamento, para que não se agrave no futuro e para que não se torne crónica.

 

Na tua idade, a parte psicológica passa por transformações importantes que favorecem a impulsividade e a vulnerabilidade para tomar decisões e as intolerantes dores sentimentais e conflitos do quotidiano não devem se silenciar com autoagressões.

 

Para um tratamento eficaz é preciso procurar ajuda profissional. A terapia irá te auxiliar a compreenderes os teus sentimentos e a encontrares formas saudáveis de expressar os teus sentimentos. É essencial falares com a tua mãe para te encaminhar num tratamento eficaz que te proporcione identificar as tuas emoções e formas saudáveis e adequadas de lidar com os teus problemas e angústias, bem como aumentar a tua autoestima e aprenderes a gostar de ti.

 

De qualquer maneira, se queres parar vais certamente conseguir procure escrever um diário, ou poesias, ou pensamentos, agindo como se na folha de papel pudesses expressar melhor teus sentimentos do que a tua própria pele.

 

Um grande abraço

Mariagrazia